Quem gosta mesmo de futebol, não apenas entende dele, desfruta e torce como também tem um outro sentimento, mais subjetivo, sublime, que passa por fora da plasticidade das jogadas, das regras e das filigranas do jogo: a percepção sensorial exalada do estádio. As coreografias da torcida, as suas cores e o seu barulho. O barulho que soa em sintonia com o jogo. A cumplicidade entre os torcedores e os jogadores. A 12ª camisa jogando, apupando, aplaudindo, cantando, vaiando... O “uuuuh!” da bola raspando o travessão. Os rufares dos tambores e os toques das cornetas, entoando melodiosas marchinhas. Nas torcidas de futebol há coisas que pegam, viram moda e institucionalizam-se. A “ola”, alguns cânticos, algumas coreografias, os rostos pintados e as fantasias. Coisas boas, positivas, que só tornam o futebol ainda mais bonito. Infelizmente, outras coisas que inventam e terminam pegando, são nefastas como certas violências, ofensas e manifestações racistas. E, agora, tomara que não vire moda outro tipo de corneta que os sul africanos inventaram e que ao invés de entoarem melodias, arrebentam nossos tímpanos como se estivéssemos dentro de um gigantesco vespeiro: as tais “vuvuzelas”. O constante ruído destas cornetas, neutraliza o 12º jogador. Torna inaudível o aplauso. Bota por terra o apupo. Termina com os cânticos, as vaias e os gritos de “olé!”. Acaba até com o silêncio do suspense que antecipa uma cobrança de pênalti. Na Copa do Mundo da África do Sul, a FIFA se sentiu constrangida a proibir estas cornetas ensurdecedoras para não ser indelicada com os anfitriões que têm este costume, talvez porque ainda não sintam o futebol como uma obra de arte. Pode ser que ainda não compreendam a poesia deste esporte. Talvez, para o sul africano, o futebol seja apenas uma festa, uma zoeira, nada diferente de uma folia onde o que vale é fazer barulho. Mas futebol é uma sinfonia e como tal tem que ser saboreado pelo público. Uma simbiose perfeita entre cada instrumento e seus músicos, juntamente com a platéia. A cada compasso uma reação. E a pausa, o silêncio por segundos que vale por um acorde. Este jogar junto, tão próprio do futebol, bate na trave das tais vuvuzelas e a interação se vai pela linha de fundo. Para o bem da beleza do futebol, que as cornetas continuem sendo apenas aquelas das marchinhas ou as da torcida vencedora, após o jogo. (Erico Santos-publicado no jornal Zero Hora de 16/06/2010)