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A ESTÉTICA DO FUTEBOL
Data : 14/06/2010
 
Quem gosta mesmo de futebol, não apenas entende dele, desfruta e torce como também tem um outro sentimento, mais subjetivo, sublime, que passa por fora da plasticidade das jogadas, das regras e das filigranas do jogo: a percepção sensorial exalada do estádio. As coreografias da torcida, as suas cores e o seu barulho. O barulho que soa em sintonia com o jogo. A cumplicidade entre os torcedores e os jogadores. A 12ª camisa jogando, apupando, aplaudindo, cantando, vaiando...  O “uuuuh!” da bola raspando o travessão. Os rufares dos tambores e os toques das cornetas, entoando melodiosas marchinhas.
Nas torcidas de futebol há coisas que pegam, viram moda e institucionalizam-se. A “ola”, alguns cânticos, algumas coreografias, os rostos pintados e as fantasias.  Coisas boas, positivas, que só tornam o futebol ainda mais bonito. Infelizmente, outras coisas que inventam e terminam pegando, são nefastas como certas violências, ofensas e manifestações racistas. E, agora, tomara que não vire moda outro tipo de corneta que os sul africanos inventaram e que ao invés de entoarem melodias, arrebentam nossos tímpanos como se estivéssemos dentro de um gigantesco vespeiro:  as tais “vuvuzelas”.
O constante ruído destas cornetas, neutraliza o 12º jogador. Torna inaudível o aplauso. Bota por terra o apupo. Termina  com os cânticos, as vaias e os gritos de “olé!”. Acaba até com o silêncio do suspense que antecipa uma cobrança de pênalti.
Na Copa do Mundo da África do Sul, a FIFA se sentiu constrangida a proibir estas cornetas ensurdecedoras para não ser indelicada com os anfitriões que têm este costume, talvez porque ainda não sintam o futebol como uma obra de arte. Pode ser que ainda não compreendam a poesia deste esporte. Talvez,  para o sul africano, o futebol seja apenas uma festa, uma zoeira, nada diferente de uma folia onde o que vale é fazer barulho.  Mas futebol é uma sinfonia e como tal tem que ser saboreado pelo público.  Uma simbiose perfeita entre cada instrumento e seus músicos, juntamente com a platéia.   A cada compasso uma reação.  E a pausa,  o silêncio por segundos que vale por um acorde. Este jogar junto, tão próprio do futebol, bate na trave das tais vuvuzelas e a interação se vai pela linha de fundo.
Para o bem da beleza do futebol, que as cornetas continuem sendo apenas aquelas das marchinhas ou as da torcida vencedora, após o jogo.
(Erico Santos-publicado no jornal Zero Hora de 16/06/2010)
 
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