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CORUJAS
Data : 12/03/2010
 
A cidade de Como, na Itália, tem um misterioso encanto, que contagia a todos. Não sei se por seu imenso lago pairado entre as montanhas como que num abraço até se  encontrar com os gelados Alpes e suas águas transparentes onde nadam majestosos cisnes ou simplesmente porque Como e seu lago estão há tanto tempo gravados na nossa memória pela literatura, pela música ou pela pintura.
Certamente foi este mesmo encanto que inspirou Alessandro Manzoni a escrever “Os Noivos”, que o meu avô deu de presente de aniversário para a minha avó com esta dedicatória em manuscrito primoroso, a bico de pena: “Offereço esta lembrança a minha prezada noiva no dia do seu 18º anniversário natalício. Santa Maria, 7 de agosto de 1910”. E é justamente lá, no Lago de Como, que tem uma plataforma  que entra 345 metros lago a dentro e culmina num romântico mirante circular ao longo do qual os amantes se “amarram” simbolicamente trancando em suas grades cadeados com seus nomes gravados  e jogando a chave no fundo das suas águas onde lá permanecerá por toda a eternidade.
Este encanto que levou Giselle Galos a compor “Le Lac de Come” que eu sempre peço para a minha mãe tocar no piano e suas notas impregnam todo o ambiente me fazendo levitar junto com elas, me levando até o lago e me fazendo descer em círculos, lentamente, avistando o telhado das casas até vê-las espelhadas nas suas águas, numa aproximação em close que só o Manzoni foi capaz de descrever e que inspirou mais tarde os cineastas...
Pois lá em Como, subindo a montanha íngreme num teleférico, o “funiculare” como eles chamam, chega-se no topo, num lugarejo que se chama Brunate . Lá tem um simpático café que, entre outras coisas, são vendidas muitas lembranças tradicionais do local e umas  corujinhas me chamaram logo a atenção. Tão reais que pareciam vivas e feitas somente com galhos secos, palhas, fios de corda e suas penas, macias que pareciam que fariam as corujas voarem ao me aproximar. E, ao me aproximar, tive que tocar para me certificar que as penas eram feitas de uma espécie de líquen que brota nos troncos das árvores. Corujas todas de elementos da natureza!
Pois estavam lá, enfileiradas, de diversos tamanhos, dezenas de corujas e um cartaz intitulado "I Gufi"   (As Corujas) que contava uma  lenda popular assim: “ Deus criou o mundo com todos os animais, mas que, então, olhando a coruja,  ficou um pouco arrependido de te-la feito tão estranha, com olhos tão grandes  e hábitos muito estranhos e noturnos. Então lhe concedeu  um grande dom: ela se tornaria o animal da boa sorte, aquele que sempre carregaria consigo o desejo de melhorar as vidas daqueles que estivessem perto, e que não tivessem medo. Assim, se diz em um antigo verso popular de montanha: ‘coruja, coruja, da noite escura, mande embora a fome e o medo ... cuida de toda a nossa gente, velhos, crianças e nossos rebanhos. Com o teu canto, que pode ser assustador, mantenha-nos amigos da Mãe Natureza! E que as fadas, duendes e aborrecidos elfos, não nos possam mais causar prejuízos.’ É por isso que a presença de uma ou mais corujas em uma casa, trará excelentes e profundos auspícios  de boa saúde e alegre sorte!”
Pela originalidade dos materiais empregados na composição delas, pelo primoroso realismo que transmitiam – e pela buona sorte,  claro – eu, que nunca sou seduzido por estes suvenires de viagem, acabei comprando a menorzinha delas e trazendo para casa. Está penduradinha no teto do meu atelier de Porto Alegre. Eu gosto muito de corujas. Uma noite descobri que uma linda coruja branca, igualzinha àquela do Harry Potter,  parava  em cima do ar condicionado do meu atelier de Montenegro.
Dia destes, lendo a “Zero Hora”, vi uma matéria que me sensibilizou. As corujas que grassam pelo litoral gaúcho, especialmente em Capão da Canoa, são carinhosamente preservadas pela comunidade, chegando a prefeitura a colocar tapumes nos territórios onde elas têm ninhos. Inclusive, a coruja, lá, é um símbolo e o secretário de cultura do município pretende erigir um grande monumento, de dez metros de altura, em forma de coruja, no centro da cidade.
Logo me passou pela cabeça que forma poderia ter este monumento. Repeli de imediato algum corujão de cimento, imenso, realista como aquelas estátuas bregas de jardim que se compram em beira de estrada. Estava eu lendo o jornal, tomando o meu café da manhã e não resisti: peguei um lápis e comecei a rabiscar na margem do jornal uma estilização de coruja. Foi assim que saiu o “Gufo”, esta corujinha  de bronze, que vocês estão vendo aí do lado. E que a coruja-monumento de Capão da Canoa, com qualquer forma que venha a ter, sirva para tornar a cidade mais bonita, mais turística e que traga muita sorte a todos que por la passarem.  Na vida... e no amor.    

 
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